07.03.2017 às 22:29
Suicídio não é notícia
O portal de notícias Mais Notícias MS, em seu papel pleno de trazer o verdadeiro jornalismo para a população sul-chapadense, informa que dentro das diretrizes do jornalismo, o suicídio não é notícia. Entre os principais motivos para não noticiar estão: não fomentar novas tragédias e respeitar a dor da famílias nesta ação.
Confira na íntegra o texto do chapadensenews, apoiado pelo maisnoticiasms:
"Em respeito às ligações telefônicas e interações pelo aplicativo whatsapp que recebemos sobre uma notícia de suicído em Chapadão do Sul reiteramos a linha editorial de não noticiar este tipo de morte de cidadãos comuns pelo fato de ser uma tragédia familiar que não merece ser repercutida como notícia por não se tratar de infromação, mas de uma doença.
Ao longo destes sete anos de atividades sem interrupções não postamos este tipo de tragédia, ao contrário de acidentes que são noticias trágicas, mas meramente informativas. O próprio site do Corpo de Bombeiros tem um protocolo de alerta sobre os perigos de “inflamar” a mente de pessoas doentes com informações sobre suicídio como um caminho que será notado pela sociedade abalada mentalmente. Nos bancos acadêmicos de comunicação social este preceito é "cláusula pétrea".
PROBLEMA DE SAÚDE
O suicídio é um problema de saúde pública e não da imprensa e o tema não deve ser abordado de forma sensacionalista. Cada caso encerra um mistério, uma história de vida muitas vezes dramática e com grande sofrimento. Claro que se for Geúlio Vargas, Michel Jackson, estrelas do cinema ou personagens políticas a situação muda pelo apelo coletivo e social.
Cientificamente está comprovado que está situação é vivenciada por pessoas doentes que precisam de tratamento psiquiátrico, não da imprensa que multiplica este fenômeno.
CONSEQUÊNCIAS
Segundo o Observatório da Imprensa recentemente foram divulgados notícias trágicas de duas mulheres que fizeram tentativas de suicídio, juntamente com os seus filhos menores (suicídio-homicídio). Estes casos tiveram uma enorme cobertura pela comunicação social, tendo gerado uma grande consternação e indignação na população.
Apesar de aparentemente estas situações terem na sua origem patologia psiquiátrica, importa refletir sobre as consequências e os perigos de se divulgar os suicídios, de forma sensacionalista, na comunicação social.
SENSACIONALISTA
Há muito tempo que se sabe que o suicídio não deve ser publicitado, de forma sensacionalista, pelos perigos que advêm do efeito mimético que a sua divulgação pode provocar em pessoas fragilizadas pela depressão. Desde o século XVIII que se conhece o fenómeno do “suicídio imitativo”, designado por “efeito Werther”.
Após a publicação do livro Os sofrimentos do jovem Werther (1774) de Goethe, o qual acaba com o suicídio do seu protagonista, muitos jovens leitores por toda a Europa, influenciados pela obra, acabaram por se suicidar em larga escala num fenómeno de imitação. Embora haja alguma controvérsia sobre este caso, designadamente pela dificuldade de se obter dados fiáveis retrospectivamente.
MEDIATIZAÇÃO PÓSTUMA
A verdade é que há o risco de os suicídios que recebem atenção pública poderem desenrolar suicídios de imitação entre os potenciais suicidas observadores. Os perigos residem no fato de, nestas pessoas, poder aumentar as expectativas de que o seu suicídio ira? também produzir uma mediatização póstuma, um sentimento de pena por parte da comunidade, aumentando deste modo o seu estatuto social.
PAPEL DA IMPRENSA
Os meios de comunicação social podem desempenhar um papel protetor relativamente ao suicídio, ou se forem mal utilizados podem ter mesmo um indesejável efeito promotor do suicídio. A própria OMS alerta para a necessidade de haver políticas de regulamentação de reportagens de suicídios pela comunicação social.
Neste caso, nas reportagens não se deve dar pormenores sobre o método utilizado, evitando-se a todo o custo abordar o tema numa perspectiva sensacionalista, de modo a não afetar outros doentes que estão em situação de grande fragilidade ou mesmo ambivalência relativamente ao suicídio. É muito importante que os meios de comunicação social tenham um sentido ético na abordagem deste tema delicado, apontando sempre para uma solução, mostrando, por exemplo, os recursos clínicos existentes no serviço nacional de saúde para o tratamento destes casos.
DOENÇA PSIQUIÁTRICA
O suicídio é um dos comportamentos mais intrigantes do ser humano, uma vez que contraria o instinto primário de sobrevivência e do amor à vida. Estima-se que cerca de 90% dos suicídios estejam associados a doença psiquiátrica, sendo a depressão a principal patologia relacionada.
É compreensível que a sociedade procure respostas para o comportamento bizarro e escandaloso de uma mãe que, no ato suicida, procure também pôr termo à vida do seu filho. Muitas vezes estes casos correspondem a situações de depressões graves acompanhadas de sintomas psicóticos.
As pessoas atingidas por esta doença acreditam que a sua vida deixou de ter sentido, o sofrimento de continuar a viver é insuportável e interminável, e a morte, neste contexto, é vista como uma solução final, colocando termo a uma vida sem sentido.
Nestas situações, podem existir alucinações auditivo-verbais, ideias delirantes de ruína ou mesmo niilistas, sendo que o juízo crítico da pessoa, e a sua liberdade, ficam gravemente afetadas pela doença mental. Neste contexto delirante, a mãe pode acreditar (erradamente) que o ato de matar os seus filhos é um gesto de piedade (homicídio oblativo), e uma demonstração de amor, justificada pelo desejo de pôr fim ao sofrimento do seu filho. É muito importante que este aspeto clínico seja esclarecido, já que pode ajudar a diferenciar a imputabilidade ou inimputabilidade do ato homicida.
SINAIS DESPERCEBIDOS
Infelizmente, por vezes, estas situações psiquiátricas passam despercebidas no contexto familiar, e não chegam a receber tratamento psiquiátrico. De qualquer modo, cerca de dois terços dos suicidas procura um médico no mês antes anterior à sua morte, fazendo com que o ato de avaliar o risco de suicídio seja uma das tarefas clínicas mais exigentes da psiquiatria.
Na esmagadora maioria destes casos, as melhoras são alcançáveis quer através dos tratamentos farmacológicos disponíveis, quer ainda através da electroconvulsivoterapia, que, de resto, é muito eficaz nos quadros clínicos de depressão psicótica."
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