08.11.2017 às 06:35
Necessário, apoio psicológico ainda é pouco comum nos clubes de futebol
No futebol profissional, a rotina de treino é desgastante, física e psicologicamente e, diariamente, os jogadores e comissão técnica são muito pressionados para obter bom desempenho e conquistar títulos. Para lidar com as pressões, na maioria dos casos, os atletas buscam ajuda nos mesmos lugares em que as cobranças têm origem, em especial a comissão técnica e a família. A conclusão é de pesquisa do Instituto de Psicologia (IP) da USP.
No estudo, o professor de educação física Rafael Moreno Castellani entrevistou 25 jogadores, 12 integrantes de comissão técnica e seis dirigentes de três clubes das Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro sobre o processo de formação do grupo. O trabalho destaca também a importância do apoio psicológico profissional, em especial junto aos atletas que vêm das categorias de base, embora constate que seja pouco difundido nos clubes.
A pesquisa demonstra que o futebol profissional é um fenômeno econômico e um comércio extremamente rentável, mercadoria que se movimenta pela circulação de jogadores e comissão técnica. “Institucionalmente, porém, o futebol se apresenta como uma organização conservadora, excludente, ‘fechada’, de privação e controle”, afirma Castellani. Um exemplo disso é a prática da concentração antes das partidas. “O que poderia ser uma oportunidade importante de consolidação da convivência em grupo para dirigentes e membros da comissão técnica é, na realidade, um espaço de confinamento e reclusão, dentro de uma ideia de que os atletas devem ser monitorados e controlados a fim de modular e regulamentar seu comportamento.”
Segundo o pesquisador, os vínculos no grupo têm uma transitoriedade exagerada, o que acontece devido às constantes e precipitadas mudanças de comissão técnica, motivadas, em grande parte, pela ausência de resultados positivos e vitórias. “A justificativa costumeiramente adotada para tais mudanças passa pela necessidade de criar um ‘fato novo’, ‘mexer o grupo’ de atletas e motivá-lo a treinar melhor e render mais nos jogos”, afirma. “No entanto, a análise feita pelo estudo aponta uma direção distinta, visto que o que tais mudanças promovem é uma desorganização no funcionamento grupal, desestruturando aquilo que já é conhecido e está conservado.”
As mudanças, relata a pesquisa, fazem emergir não a motivação, mas as ansiedades básicas que se relacionam à aprendizagem. “Uma delas é o medo da perda – do contrato de trabalho, da titularidade, do papel desempenhado, entre outros”, conta o professor de educação física. “Outra é o medo do ataque – que se trata do receio de lidar com o novo treinador, que também estará tomado por tais ansiedades básicas, de perder suas defesas diante das novidades e de não possuir instrumental para enfrentar o desconhecido, tal como um método de treino e esquema tático, por exemplo, trazendo aos atletas insegurança, hesitação e vulnerabilidade para lidarem com as situações de aprendizagem, como os treinos e jogos.”
Castellani observa que “na adaptação dos atletas, a leitura habitualmente disseminada entre os profissionais do esporte é que estar adaptado é adotar postura rígida, passiva e estereotipada e possuir competência social e aceitação indiscriminada de normas e valores”.
A visão que predominou entre os entrevistados, ressalta, “é a de que estar adaptado é se mostrar entrosado com os demais atletas e aos novos modelos de treinamento e jogo, e adequado às condições do clube (regras, nível de exigência e cobrança).”
COMENTÁRIOS
VOLTAR