12.10.2017 às 06:10
Mesmo usando filtro, exposição ao Sol pode ser perigosa
Embora nos últimos anos as pessoas tenham passado a usar filtros solares que protegem contra a radiação UVB e UVA, a incidência de câncer de pele na população continua elevada.
Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, o câncer de pele responde por 33% de todos os diagnósticos desta doença no Brasil, sendo que o Instituto Nacional do Câncer (Inca) registra a cada ano cerca de 180 mil novos casos. Na Austrália, apesar da campanha massiva para promover o uso de protetores solares, a incidência de melanoma invasivo aumentou 13% na população suscetível com idade inferior a 30 anos, segundo dados de um artigo publicado em 2016 no Journal of Investigative Dermatology. Por trás destes números pode estar a ação da luz visível, que também causa danos à pele, principalmente quando associada à exposição aos raios UVA.
O alerta foi feito professor Maurício S. Baptista, do Instituto de Química (IQ) da USP e membro do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (Cepid Redoxoma), que, em julho, publicou resultados de mais um estudo de seu grupo sobre fotodano, desta vez mostrando como os efeitos combinados da radiação UVA e da luz visível causam lesões pré-mutagênicas no DNA nuclear de queratinócitos, que são células do tecido epitelial.
“A sociedade erra ao considerar a luz visível segura. As políticas de proteção solar são centradas na prevenção de danos causados pela exposição à radiação ultravioleta (UV), quando já se sabe que a luz visível também causa danos à pele”, afirma Baptista.
Segundo o pesquisador, as pessoas são induzidas a erro ao acreditar que passando protetor solar a cada duas horas podem ficar o dia inteiro expostas ao sol. “Elas acham que estão protegidas, mas não estão. Essa proteção não é suficiente e, infelizmente, produtos que possam oferecer proteção contra os efeitos da luz visível ainda não estão disponíveis no mercado. As empresas que produzem os filtros solares conhecem os dados sobre os efeitos nocivos da luz visível, mas, como ainda não desenvolveram produtos adequados, não falam sobre esse assunto, colocando a saúde da população em risco.”
Baptista lembra, no entanto, que as pessoas não devem evitar totalmente o sol. Os raios UVB são necessários para a síntese de vitamina D, que, além do papel contra a osteoporose, está envolvida no desempenho de músculos, nervos, coagulação do sangue, crescimento celular e utilização de energia. A dose ideal seria expor o corpo inteiro por 30 minutos ao sol, três vezes por semana, sem o uso de filtros solares.
Proteção contra luz visível
Uma das dificuldades para o desenvolvimento de filtros solares que protejam também contra a luz visível é que eles teriam de ser coloridos.
Paralelamente ao estudo dos mecanismos do fotodano, Baptista e seu grupo vêm desenvolvendo um novo conceito em termos de proteção solar, baseado no uso de pigmentos naturais em protetores, que, assim, são capazes de diminuir a penetração da luz na pele sem causar mudança perceptível da cor da pele.
Em 2016, ele depositou um pedido de patente junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) de um processo de obtenção de nanopartículas de sílica revestidas com melanina. A ideia é, a partir daí, gerar um filtro solar que proteja contra a luz visível.
Segundo o pesquisador, algumas empresas, como a brasileira FarmaService Bioextract e a indiana Interface Solutions, já mostraram interesse em desenvolver produtos para a proteção contra os efeitos da luz visível em parceria com o laboratório de pesquisa de Baptista no Instituto de Química da USP.
Mas o processo é lento e, por ora, enquanto não for desenvolvido um filtro solar que proteja contra um espectro mais amplo de luz solar, a recomendação é que se tome sol com moderação.
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