30.07.2017 às 13:10
Câncer de mama: a difícil tarefa de comunicar a notícia
Qualidade da comunicação influencia no envolvimento de paciente e familiares no tratamento
Comunicar um diagnóstico de câncer de mama à paciente é uma tarefa difícil, pois o profissional da saúde assume o lugar de um portador de má notícia. A comunicação é considerada pelos profissionais um dos aspectos críticos do ato diagnóstico, pois não é um processo linear, na medida em que implica vivências diversas, sinuosas, densas, complexas e, muitas vezes, ambíguas tanto para a paciente como para o médico.
Dependendo do modo como esse processo se desenvolve, a comunicação pode resultar em vivências perturbadoras para quem recebe a notícia. Portanto, é fundamental que o profissional respeite a individualidade da paciente, pois a qualidade da comunicação está relacionada ao ajustamento emocional à doença e ao envolvimento da pessoa acometida e dos seus familiares no decorrer do tratamento.
Isso é o que revela estudo da psicóloga Janaina de Fátima Vidotti, que investigou a vivência do diagnóstico tanto na perspectiva dos médicos que o comunicam, como na das pacientes que o recebem. O trabalho foi desenvolvido na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, com orientação do professor Manoel Antônio dos Santos.
Janaina lembra que o diagnóstico de câncer traz impacto intenso para a vida da mulher, pois sinaliza um momento de transformação. Esse processo, diz a pesquisadora, tem uma temporalidade própria e não linear, que não está restrita ao momento em que a notícia é dada. “A aceitação pode ser um processo difícil e permeado de vivências angustiantes que abalam o equilíbrio psíquico, mas também pode ser uma experiência tranquila e permeada por aceitação imediata da doença como um fato da vida, dando início à consequente busca de fortalecimento e enriquecimento do cuidado.”
Para a pesquisadora, a comunicação pode ser considerada uma ferramenta indispensável para a promoção de cuidado junto à paciente assistida. “Ela se apresenta como um elo entre a paciente, a família e o profissional de saúde. É possível afirmar que uma boa comunicação é um componente indispensável na qualidade da relação estabelecida, uma vez que sedimenta a confiança da paciente no tratamento que será implementado e que costuma ser intenso, prolongado e invasivo.”
Pesquisas que abordam os componentes que são considerados relevantes para o paciente em uma comunicação diagnóstica mostram que, em geral, receptividade, clareza, comunicação empática, atenção e contato visual, bem como o fato de ser discutido o prognóstico, ou seja, as chances de sobrevivência, que são diretamente associadas ao estágio do câncer, são diferenciais na comunicação médico-paciente. Além disso, explica Janaina, as condições nas quais um diagnóstico é formulado podem influenciar a capacidade posterior de compreensão, recordação e aceitação da informação, contribuindo para a prevenção de transtornos emocionais.
Relação médico-paciente e família
A pesquisadora reafirma que uma comunicação eficiente da notícia é um elemento decisivo para formar uma base de confiança e segurança na relação entre médico e paciente. O tipo de vínculo que se desenvolve a partir desse momento pode ter reflexos até o final do tratamento. Por isso esse vínculo deve ser o mais honesto, claro e compreensivo possível, além de sensível e acolhedor. “Se a notícia for dada de modo inapropriado, a relação tende a ficar estremecida e, consequentemente, vai aparecer a desconfiança entre os dois.”
O médico, como profissional da saúde, é considerado pela paciente um elemento-chave no cenário do enfrentamento do câncer de mama, principalmente quando informa sobre a doença e sua evolução, as melhores opções de tratamento, bem como quando conforta e encoraja a doente durante o diagnóstico e tratamento.
Outro ponto que chama a atenção na pesquisa é a necessidade de se manterem os cuidados em todos os momentos do processo por que passam as pacientes, não se restringindo somente ao momento em que a notícia é comunicada. “Muitas pacientes não se reabilitam plenamente, devido aos prejuízos psíquicos e sociais significativos que tendem a se avolumar cada vez mais desde a tomada de consciência sobre o diagnóstico”, alerta Janaina.
Cuidado integral é imprescindível
O cuidado integral para as pacientes pode ser compreendido como aquele que engloba aspectos psíquicos, sociais, biológicos e espirituais. A doença não incide apenas sobre o corpo, o que torna imprescindível que todas essas partes sejam consideradas no processo de adoecimento. Infelizmente, não obstante os esforços para assegurar o cuidado humanizado na saúde, o que se observa na prática é que o câncer de mama muitas vezes ainda é tratado apenas em suas dimensões físicas e não psíquicas, sociais e espirituais. “Os aspectos emocionais e psicológicos da mulher ainda são negligenciados, não sendo reconhecidos nem tratados. Isso deve ser objeto de reflexão por parte da equipe de saúde. A constituição biológica é fundamental na compreensão do processo de adoecimento, mas também se faz necessário que os outros fatores sejam incorporados na concepção de cuidado, para que as necessidades básicas das pacientes e de suas famílias não sejam negligenciadas”, defende Janaina.
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